terça-feira, 26 de abril de 2016

Piloto Automático

História: Autopilot
Autor: Skarjo
História publicada no subreddit nosleep. A história pertence a seu autor, eu apenas a traduzi.

Piloto Automático

Autor: Skarjo (Vencedor de Março 2013)

Você já esqueceu seu celular?

Quando você percebeu que você tinha esquecido? Eu imagino que você não bateu na testa e exclamou “droga” do nada. A realização provavelmente não surgiu para você espontaneamente. Mais provável você ter tentado pegar seu celular, abrindo seu bolso ou mochila, e ficou momentaneamente confuso por não encontrá-lo. Então, você mentalmente refez seus passos daquela manhã.

Merda.

No meu caso, o despertador do meu celular me acordou como sempre, mas eu percebi que a bateria estava mais baixa que eu imaginava. Era um celular novo e tinha o hábito irritante de deixar aplicativos rodando que consomem a bateria durante a noite. Então, eu o coloquei no carregador enquanto tomava banho, ao invés de colocar na minha pasta como habitualmente. Foi uma quebra rápida da rotina, mas foi tudo que era necessário. Uma vez no chuveiro, meu cérebro voltou para “a rotina” que ele segue todas as manhãs e era isso.

Esquecido.

Isso não era só eu sendo descuidado, como eu pesquisei depois, é uma função cerebral reconhecida. Seu cérebro não funciona em apenas um nível, mas em vários. Tipo, quando você está caminhando para algum lugar, você fica pensando sobre o lugar que está indo e evitar problemas na rua, mas você não precisa pensar sobre manter suas pernas se movendo adequadamente. Se precisasse, o mundo inteiro iria se tornar um grande cosplay do QWOP.Eu não estava pensando sobre regular minha respiração, eu estava pensando se eu deveria pegar um café no caminho para o trabalho (o que eu fiz). Eu não estava pensando sobre mover meu café da manhã pelos meus intestinos, eu estava pensando se eu sairia do trabalho a tempo para pegar minha filha, Emily, na creche ou se eu ficaria preso fazendo hora extra. Esse é o ponto: há um nível do seu cérebro que lida só com rotina, para que o resto do cérebro possa pensar sobre outras coisas.

Pense sobre isso. Pense sobre a última vez que você foi de casa para o trabalho/escola. O que você lembra? Pouco, se nada, provavelmente. As jornadas mais comuns se transformam emu ma só, e se lembrar de uma em particular foi cientificamente comprovado de ser difícil. Faça algo com frequência o suficiente e isso se torna rotina. Continue fazendo isso e a ação para de ser processada pela parte pensante do cérebro e é destinada para a parte do cérebro destinada a lidar com rotina. Seu cérebro segue fazendo isso, sem você nem pensar sobre. Logo, você pensa sobre o trajeto até o trabalho tanto quanto você pensa em mandar suas pernas caminharem. Ou seja, não pensa nada.

A maior parte das pessoas chama isso de piloto automático. Mas aí mora o perigo. Se você tiver uma quebra na sua rotina, sua capacidade de lembrar e resolver essa quebra só funciona se você também tiver a capacidade de impedir seu cérebro de entrar no modo rotina. Minha habilidade de lembrar do meu celular no balcão é tão confiável quanto minha habilidade de parar meu cérebro de entrar no “modo rotina matinal” que dita que o meu celular estaria na minha pasta. Mas eu não impedi meu cérebro de entrar no modo rotina. Eu entrei no chuveiro como sempre. Rotina começou. Exceção esquecida.

Piloto automático ativado.

Meu cérebro estava de volta na rotina. Eu tomei banho, me barbeei, ouvi a previsão de tempo ensolarado no rádio, dei café da manhã para a Emily, a coloquei no carro (ela estava tão adorável nessa manhã, reclamando sobre o “sol malvado” que machucava seus olhos, dizendo que isso a impediu de dormir um pouco no caminho para a creche) e saí. Essa era a rotina. Não importava que meu celular estava no balcão, carregando silenciosamente. Meu cérebro estava na rotina, e, na rotina, meu celular estava na minha pasta. Por isso que eu esqueci meu celular. Não foi descuido. Não foi negligência. Nada além do meu cérebro entrando no modo rotina e desconsiderando a exceção.

Piloto automático ativado.

Eu saí para o trabalho. Era um dia incrivelmente quente. O sol estivera queimando desde antes do meu celular me acordar. A direção do carro estava quente ao toque quando sentei. Eu acho que escutei Emily se mexer atrás do meu banco do motorista para se esconder do sol. Mas eu fui para o trabalho. Entreguei o relatório. Compareci à reunião da manhã. Não foi até eu fazer uma pausa para um café e procurar pelo meu cellular que a ilusão se quebrou. Eu fiz um passo a passo mental. Lembrei da bateria baixa. Lembrei de colocá-lo no carregador. E lembrei de deixá-lo ali.

Meu celular estava no balcão.

Piloto automático desativado.

De novo, aqui mora o perigo. Até você ter esse momento, o momento em que você tenta pegar seu celular e quebra a ilusão, essa parte do seu cérebro ainda está no modo rotina. Ela não tem motivo para questionar os fatos da rotina, por isso que é uma rotina. Atributo da repetição. Não é como se alguém pudesse dizer “por que você não lembrou do seu celular? Por que você não se deu conta? Você deve ser negligente”, isso é não entender o objetivo. Meu cérebro estava me dizendo que a rotina tinha sido completada como habitual, apesar de não ter sido. Não era que eu esqueci meu celular. De acordo com o meu cérebro, de acordo com a rotina, meu celular estava na minha pasta. Por que eu pensaria em questionar isso? Por que eu conferiria? Por que eu iria lembrar de repente, do nada, que meu celular estava no balcão? Meu cérebro estava preso a rotina, e a rotina era que o meu celular estava na pasta.

O dia continuou a ferver. O sol da manhã deu lugar ao terrível calor febril da tarde. O asfalto borbulhava. Os raios direto do sol ameaçavam rachar o chão. As pessoas trocavam cafés por sucos de fruta gelados. Jaquetas deixadas de lado, mangas arregaçadas, gravatas afrouxadas, testas enxugadas. Os parques lentamente se enchiam de gente para tomar sol ou para fazer churrasco. O termômetro continuava subindo. Graças a deus, o escritório tinha ar condicionado.

Mas, como sempre, a fornalha que foi o dia deu lugar a uma noite mais fresca. Outro dia, outro dólar. Ainda xingando a mim mesmo por esquecer o celular, eu dirigi de volta para casa. O calor do dia tinha cozinhado o carro, fazendo um cheiro horrível sair de algum lugar. Quando estacionei na garagem, os cascalhos estalando confortavelmente debaixo dos pneus, minha esposa me recepcionou na porta.

“Onde está a Emily?”

Merda.

Como se o celular não fosse ruim o suficiente. Depois de tudo, eu tinha esquecido a Emily na maldita creche. Eu imediatamente dirigi para a creche. Me dirigi a porta e comecei a ensaiar minhas desculpas, me perguntando se conseguiria não pagar nenhum adicional. Eu vi um pedaço de papel grudado na porta.

“Devido a vandalismo durante a noite, por favor, use a porta dos fundos. Apenas hoje”.

Durante a noite? O quê? A porta estava ok essa manh--.

Congelei. Meus joelhos tremiam.

Vândalos. Uma mudança na rotina.

Meu celular estava no balcão.

Eu não estivera aqui essa manhã.

Meu celular estava no balcão.

Eu dirigi direto para o trabalho porque eu estava bebendo meu café. Eu não deixei a Emily na creche.

Meu celular estava no balcão.

Ela se moveu no banco. Eu não a enxerguei no espelho.

Meu celular estava no balcão.

Ela pegou no sono se escondeu do sol malvado. Ela não falou quando eu passei pela creche.

Meu celular estava no balcão.

Ela tinha mudado a rotina.

Meu celular estava no balcão.

Ela mudou a rotina, e eu esqueci de deixá-la na creche.

Meu celular estava no balcão.

Nove horas. Aquele carro. O sol escaldante. Sem ar. Sem água. Sem força. Sem ajuda. Aquele calor.
Uma direção quente demais para tocar.

Aquele cheiro.

Eu caminhei até a porta do carro. Pasmo. Chocado.

Eu abri a porta.

Meu celular estava no balcão e minha filha estava morta.

Piloto automático desativado.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Uma história para assustar meu filho

Autor: OvenFriend
História publicada no subforum nosleep do reddit. A história pertence a seu respectivo autor, eu apenas a traduzi.


Uma História para Assustar Meu Filho

Autor: OvenFriend (Melhor Vencedor Mensal de 2014)

“Filho, nós precisamos conversar sobre segurança na internet”. Eu lentamente me abaixei ao lado dele. Seu laptop estava aberto e ele estava jogando Minecraft num servidor público. Seus olhos estavam fixos no jogo. Comentários rolavam no lado da tela, numa caixa de chat. “Filho, você pode parar de jogar um pouco?”

Ele saiu do jogo, fechou o laptop e olhou para mim. “Pai, essa vai ser outra das suas histórias bobas de terror?”

“Ooo quêêêê?” Eu fingi que tinha sido magoado por um segundo, e então sorri para ele. “Eu achei que você gostava das minhas fábulas educativas?” Ele cresceu escutando minhas histórias sobre crianças que encontravam bruxas, fantasmas, lobisomens e ogros. Como muitas gerações de pais, eu usava histórias assustadoras para ensinar morais e lições sobre segurança. Pais solteiros como eu devem usar todas as ferramentas que puderem para ensinar seus filhos.

Ele franziu o rosto um pouco. “Elas eram ok quando eu tinha seis anos. Mas agora que eu estou ficando maior, elas não me assustam mais. Elas são meio bobas. Se você vai contar uma história sobre a internet, conte uma muito, muito assustadora!” Eu olhei incrédulo para ele. Ele cruzou os braços. “Pai, eu já tenho dez anos e posso aguentar”.

“Hmmm… Tudo bem, vou tentar.”

Eu comecei: “Era uma vez um menino chamado Colby...”. A expressão dele indicava que ele não estava impressionado com o quão assustadora era minha introdução. Ele respirou profundamente e pareceu aceitar que seria outra das histórias bobas do papai. Eu continuei:

Colby começou a usar a internet e a participar de diversos sites infantis. Depois de um tempo, ele começou a falar com outras crianças em jogos e em fóruns. Ele fez amizade com outro menino de dez anos, chamado Helper23. Eles gostavam dos mesmos videogames e programas de TV. Eles riam das piadas um do outro. Eles exploravam novos jogos juntos.

Depois de vários meses de amizade, Colby deu para Helper23 seis diamantes no jogo que eles estavam jogando. Esse era um presente muito generoso. O aniversário de Colby estava chegando e Helper23 queria enviar para ele um presente legal na vida real. Colby imaginou que não seria um problema dar para Helper23 seu endereço de casa – desde que ele prometesse não contar para nenhum estranho ou adulto. Helper23 jurou que ele não contaria para ninguém, nem para seus próprios pais, e disse que iria enviar o presente logo.

Eu pausei a história e perguntei para meu filho: “Você acha que essa foi uma boa ideia?”. “Não!”, ele exclamou, balançando a cabeça vigorosamente. Apesar de não querer, ele estava se interessando pela história.

Colby também achou que não tinha sido uma boa ideia. Ele se sentiu culpado sobre ter contado seu endereço de casa – e sua culpa começou a crescer. E crescer. Na hora que ele colocou seus pijamas na noite seguinte, sua culpa e medo estavam maiores que qualquer outra coisa no mundo. Ele resolveu contar a verdade para seus pais. Ele receberia um castigo sério, mas valia a pena para ter uma consciência limpa. Ele ficava impaciente em sua cama, enquanto ele esperava seus pais virem lhe dar boa noite.

Meu filho sabia que a parte assustadora estava vindo. Apesar de ter desprezado minhas histórias bobas, ele se inclinou para frente com os olhos arregalados. Eu falei num tom baixo deliberadamente:

Ele escutava todos os sons da casa. A máquina de lavar vibrava na lavanderia. Galhos raspavam contra os tijolos do lado de fora de seu quarto. Seu irmão recém nascido fazia sons em seu quarto. E havia outros sons que ele não conseguia... identificar. Finalmente, os passos de seu pai ecoaram no corredor. “Ei, pai?”, ele chamou. “Eu tenho uma coisa para contar para você”.

O rosto de seu pai apareceu na porta aberta, sua cabeça num ângulo estranho. Na escuridão, sua boca não parecia mexer e seus olhos pareciam errados: “Sim, filho”. A voz estava diferente também. “Você está bem, pai?”. O menino perguntou. “Aham”. Respondeu o pai, numa voz estranhamente afetada. Colby puxou as cobertas defensivamente. “Ummm… A mamãe está por aí?”.

“Aqui estou eu!” A cabeça da mãe surgiu na porta abaixo da cabeça do pai. A voz dela era um falsetto nada natural. “Você ia nos contar que você deu nosso endereço para o Helper23? Você não devia ter feito isso! Nós DISSEMOS para você nunca colocar informações pessoais na internet!”.

Ela continuou: “Ele não era uma criança! Ele só fez de conta que era uma. Você sabe o que ele fez? Ele veio a nossa casa, invadiu e matou a nós dois! Só para que ele pudesse passar um tempo com você!”

Um homem gordo num casaco molhado surgiu na porta segurando as duas cabeças decepadas. Colby gritou quando o homem jogou as duas cabeças no chão, revelou sua faca e se aproximou do menino.

Meu filho gritou também. Ele colocou suas mãos defensivamente sobre seu rosto. Mas nós estávamos apenas começando a história.

Depois de várias horas, o menino estava quase morto e seus gritos se transformaram em gemidos fracos. O assassino escutou o choro do bebê em outro quarto e arrancou sua faca que estava cravada em Colby. Isso era algo especial. Ele nunca tinha matado um bebê antes e estava feliz com essa ideia. Helper23 deixou Colby para morrer e seguiu o choro pela casa, até encontrá-lo.

No quarto do bebê, ele caminhou até o berço, pegou o bebê e o segurou em seus braços. Ele o colocou sobre a mesa de trocar fraldas para olhá-lo melhor. Mas conforme ele segurava o bebê, o choro parou. O bebê olhou para ele e sorriu. Helper23 nunca tinha segurado um bebê, mas ele o balançou em seus braços como se já tivesse feito isso antes. Ele limpou suas mãos ensanguentadas no lençol, para poder acariciar o rosto do bebê. “Oi, rapazinho”. Toda aquela raiva sádica se derreteu em algo mais amoroso.

Ele saiu do casa, levou o bebê consigo, o chamou de William e o criou como se fosse seu filho.

Depois que eu terminei a história, meu filho estava visivelmente abalado. Entre sua respiração falha, ele gaguejou: “Mas, pai, MEU nome é William”. Eu dei para ele uma piscadela e acariciei seu cabelo. “É claro que é, filho”. William correu pelas escadas para seu quarto enquanto soluçava.

Mas no fundo... Eu acho que ele gostou da história.

domingo, 24 de abril de 2016

O paciente que quase me fez desistir da medicina (Parte 2)

Autor: mytheosholt
História publicada no subforum nosleep no reddit. A história pertence ao seu respectivo autor, eu apenas a traduzi para o português.

O paciente que quase me fez desistir da medicina (Parte 2)

Autor: mytheosholt (Melhor Monstro Original 2015)

Sabe, eu subestimei o quão difícil seria escrever tudo isso, apesar de que o fato de que vocês todos parecem acreditar nisso e até especulam o que aconteceu é, de alguma forma, reconfortante. Eu li seus comentários e, enquanto eu posso dizer que nenhum de vocês está perto de adivinhar o que há de errado com esse paciente (e, para ser justo, vocês ainda não sabem a história toda ainda), é legal ver que as pessoas levam a minha história a sério. Talvez ainda haja esperança, depois de tudo.

De qualquer forma, onde eu estava? Ah, sim, o prontuário do Joe e o fato de que praticamente não houve nenhuma atualização por quatro anos.

Bem, em 1986, o prontuário começou novamente. Parece que cortes no orçamento fizeram com que os pacientes precisassem dividir quartos. Assim, há uma nota do novo Diretor Médico, Dr. A., instruindo a equipe a encontrar um colega de quarto que seja pouco propenso a despertar seja lá qual for a condição de Joe.

A equipe evidentemente falhou nisso. A nota seguinte também era do Dr. A. e estava endereçada a uma Dra. G, que eu sabia que era a atual Diretora Médica. Estava escrito o seguinte:

14 de Dezembro, 1986 – Nota. De: Dr. A. Para: Dra. G..
Eu não sei de quem foi a ideia de colocar o Philip A. no quarto do Joe M., mas seja lá de quem foi, eu quero que essa pessoa seja demitida. Colocar um homem adulto seriamente agressivo no quarto com um menino que tem a necessidade de provocar as pessoas obviamente não traria bons resultados. Então, agora, parece que nós temos pelo menos um paciente cuja família pode processar o hospital caso descubram o que aconteceu com o filho deles. Eu imagino que você já tenha escutado histórias sobre Philip ter precisado de sedação antes que ele pudesse cumprir a promessa que fez de “matar aquele maldito monstrinho”. Eu não sei o que isso fará com a condição do Joe, mas não consigo imaginar que será bom.

Depois desse primeiro desastre, os registros indicam que Joe foi colocado junto com outro paciente mais próximo de sua idade: um menino de oito anos que foi internado por esquizofrenia desorganizada. Isso, aparentemente, teve um resultado muito pior.

16 de Dezembro, 1986. – Nota. De: Dr. A. Para: Dra. G.
A nossa seguradora não vai ficar feliz se nós tivermos mais incidentes como esse com o Will A.. A única boa notícia nisso, eu acho, é que a autópsia não mostrou nenhum sinal de agressão. Eu imagino que as tendências agressivas de Joe tenham diminuído um pouco. Mas mesmo que a autópsia consiga nos absolver de qualquer culpa, eu me preocupo que um bom advogado conseguirá destruí-la na corte. Quando foi a última vez que um menino de oito anos morreu de ataque cardíaco? Cheque com a enfermeira e reze para que Will não tenha recebido uma dose muito alta ou algo assim.

A colega de quarto de Joe seguinte foi uma menina de doze anos que foi internada por transtorno de estresse pós-traumático após ser abusada sexualmente por seu pai. Havia uma nota junto da evolução sobre a troca de quarto instruindo as enfermeiras e técnicos a periodicamente darem uma olhada nos dois, porque a menina, aparentemente, tinha a tendência a ficar violenta a qualquer provocação. Conforme aconteceu, ela foi quem se beneficiou dessa proteção.

18 de Dezembro, 1986. – Nota. De: Dr. A. Para: Dra. G..
Demita todos os técnicos que estavam trabalhando ontem à noite. Exceto o que os pegou. Eu quero que ele seja colocado como responsável pela ala. Você vai pessoalmente se encarregar do tratamento da Nadya I.. Apenas alguém experiente como você vai conseguir fazer algo, depois de seja lá o que aquele pirralho tentou fazer com ela. E, aliás, descubra como ele ficou sabendo dessas coisas. Se as técnicas estão falando sobre esse tipo de coisa perto de pacientes jovens, elas precisam ser demitidas ou repreendidas. Crianças de dez anos podem desenvolver impulsos daqueles cedo, particularmente meninos, mas não normalmente impulsos em relação a nada tão... específico. Enquanto isso, verifique que colocamos contenções de couro na cama do Joe M. para que ele não possa fazer algo assim de novo.

O último colega de quarto de Joe que veio da população geral de pacientes psiquiátricos era um adolescente viciado em metanfetamina que desenvolveu um transtorno de personalidade paranoide grave, provavelmente escolhido porque ele facilmente conseguiria se defender de Joe, se ele tentasse atacá-lo. E, além disso, como precaução contra esse tipo de agressão, os dois foram colocados num quarto em que eles poderiam ser permanentemente contidos para impedi-los de machucarem um ao outro. Entretanto, as coisas não ficaram melhores:

20 de Dezembro, 1986. – Nota. De: Dr. A. Para: Dra. G..
Primeiramente, veja alguém para nos conseguir contenções mais fortes para as nossas camas. Depois do que aconteceu na última noite com Claude Y. e tudo que aconteceu nessa última semana, nós vamos precisar garantir para o público que nada assim irá acontecer de novo. Além disso, peça para os técnicos irem ao quarto mais uma vez, porque eu estou, honestamente, incrédulo com a explicação que eles estão nos dando. Não importa o quão paranóide o Claude era; não há nada naquele quarto que pudesse assustá-lo o suficiente para fazê-lo mastigar diversas amarras de couro e se jogar da janela. As amarras já seriam difíceis o suficiente, mesmo com toda a adrenalina. Mas forçar uma janela de barras? Tem de haver algo de errado com as barras, ou com a cama, ou com a janela.
De um jeito ou de outro, portanto, eu quero descobrir o que aquela criança está fazendo para que acidentes assim aconteçam. Escolha qualquer técnico que você quiser para ficar de noite com ele amanhã. Certifique-se que o técnico tem tudo que precisa para se defender: taser, bastão, qualquer coisa. Trate o caso dele como de um paciente criminalmente insano, mesmo que nós não podemos provar que nada aconteceu, além do incidente com a Nadya. Oh, e faça o técnico levar um gravador com ele. Se aquele desgraçado fizer qualquer som, até respirar, eu quero que esteja disponível para ser analisado.

Havia outro registro indicando onde encontrar a gravação que aparentemente resultou dessa ordem. Eu anotei isso também. Havia uma última comunicação do Dr. A. sobre o Joe e nela, finalmente, eu encontrei pelo menos uma resposta parcial do porquê da equipe estar tão desesperada com o diagnóstico desse paciente em particular. Mas, ao contrário dos outros documentos, esse não era uma simples nota. Era uma carta, aparentemente guardada pela Dra. G..

Cara Rose,
Eu acabei de falar com o Frank. Acho que é claro dizer que ele não vai conseguir trabalhar pelo menos por um mês, pelo estado que ele se encontra. E você sabe o quê? Eu vou deixar ele tirar esse tempo como licença saúde, porque é minha culpa que ele está assim. Não posso punir alguém por seguir as suas ordens. Se ele não melhorar até o tempo acabar, nós vamos ter que mantê-lo por aqui.
Eu também cheguei a uma conclusão: seja lá o que Joe tem, eu tenho certeza que nós não podemos curá-lo. Eu não sei nem se nós podemos diagnosticá-lo. Obviamente não está no DSM. E dado o efeito que ele tem nos outros, eu estou começando a duvidar que alguém poderia diagnosticá-lo.
Mas sabe o que é, Rose, as coisas que Joe estava tentando lembrar o Frank? Elas eram todas pesadelos que o Frank tinha quando era criança. Ele disse que o monstro nesses pesadelos esteve sussurrando para ele a noite toda, dizendo o quanto ele sentiu falta de persegui-lo, de capturá-lo, de comê-lo.
Era absurdo. Como um menino tão jovem saberia o que um homem de 40 anos costumava sonhar? E então eu ouvi a fita. E a coisa é, eu não consigo chegar a nenhuma outra conclusão, a não ser que ele imaginou isso. Eu não ouvi nenhum som, e o microfone estava ligado o tempo todo. Além disso, Joe estava contido do outro lado do quarto, então se ele estava fazendo um som alto o suficiente para o Frank ouvir, o microfone teria pego. Eu não acho que ele poderia ter disfarçado isso, a não ser que ele estivesse do lado da orelha do Frank e sussurrando, o que é, obviamente, impossível.
Mais estranho ainda é que depois de um tempo, eu comecei a escutar a respiração do Frank muito alta. E a respiração dele não era normal. Parecia que ele estava hiperventilando, como se ele estivesse tendo um ataque de pânico, na verdade. Mas eu escutei a fita de novo e de novo, e não há outros sons. Nenhum. Então  eu não tenho nem ideia do que o Frank está falando.
Eu agora sei com certeza, depois dessa sessão e depois da outra que eu tive com ele, que nós não podemos curar o Joe. Vai ser preciso um médico melhor que eu para entendê-lo e boa sorte em encontrar um que aceite vir trabalhar nesse lugar de merda. Talvez ele morra aqui. Mas não há nada que possamos fazer.
Rose, você vai ser Diretora Médica um dia. Nós dois sabemos disso. Nós já discutimos isso extensivamente. Eu sei que você vai se sentir tentada a tratá-lo você mesma. Por favor, não faça isso. Eu não quero que você se torne uma pilha de nervos também. Simplesmente deixe ele aqui por conta dos pais dele e conte pra eles qualquer história que você tiver que contar. Eles são ricos o suficiente para pagar por uma vida inteira de cuidado. Mesmo que eles fiquem pobres, arranje um quarto dentro do orçamento. Eu não conseguiria suportar se eu soubesse que eu tive ele sob meu cuidado e ele, de alguma forma, saiu para criar problemas no mundo real com seja lá o que ele tem porque nós falhamos. Prometa para mim, Rose. – Thomas.

Depois dessa carta, havia apenas um documento oficial declarando que todo tipo de terapia com “Joe” seria interrompida. Ele teria seu próprio quarto, mas seria contido nele 24 horas por dia, sete dias por semana. Apenas um grupo seleto de técnicos poderia entrar para trocar suas roupas e apenas a enfermeira mais experiente teria a responsabilidade de dar medicação a “Joe”. Todos da equipe foram encorajados a ficar longe dele. Ele não seria referido por nada além desse apelido que encurtava seu nome, para que qualquer um querendo descobrir mais informações não soubesse por onde começar. Isso era, em suma, tudo que eu observei desde que comecei a trabalhar aqui.

Mesmo assim, se eu estava intrigado antes, eu estava completamente curioso agora. Aqui havia a possibilidade de descobrir uma doença previamente desconhecida – não a mera permutação de algo já descrito no DSM, mas algo completamente novo! E eu tinha o paciente zero sob o teto do hospital. Minha escolha de residência agora parecia quase um ato de Deus. Havia só uma coisa a fazer agora: escutar as fitas que foram mencionadas.

Eu imediatamente voltei ao funcionário do arquivo e mostrei para eles o número de registro delas, esperando consegui-las rápido. Entretanto, para minha surpresa, depois de ele digitar os números no seu computador, ele franziu as sobrancelhas, parecendo confuso, e caminhou para os arquivos sem dizer uma palavra. Cerca de meia hora depois, ele voltou parecendo ainda mais confuso.

“Não há nada registrado com esses números, rapaz”, ele disse. “Nunca houve. Você tem certeza que os escreveu certo, né?”

Eu tinha certeza que eu tinha e, de qualquer forma, eu não podia arriscar ir novamente e alertá-lo de qual prontuário eu estivera olhando. Além disso, se elas algum dia estiveram aqui, faz sentido que elas tenham sido destruídas ou removidas, dado sua conexão com o maior paciente problema do hospital. Eu fingi um sorriso e balancei a cabeça pro funcionário do arquivo.

“Alguém pregou uma peça em mim”, eu disse. “Desculpe por desperdiçar seu tempo, senhor”.

Eu saí do arquivo do hospital e me esgueirei discretamente para fora do hospital. Eu não queria ser visto por alguém que pudesse se perguntar o que eu estava fazendo ali no meu dia de folga. Além disso, eu precisava de tempo para pensar sobre o que estava escrito no prontuário, antes de fazer qualquer tentativa de falar com o paciente.

Que Joe começou com algum tipo de desordem baseada na empatia era óbvio. O que era confuso era o quão extrema era. A empatia emocional dele – isto é, a habilidade de sentir o que as outras pessoas estão sentindo – era obviamente não existente, se ele estava fazendo pessoas se matarem e tentando estuprar uma menina antes que ele pudesse saber o que estupro era. Mas a empatia cognitiva – isto é, a habilidade de reconhecer o que os outros estão sentindo – devia ser inacreditável. Quase super humana. Não apenas ele conseguia reconhecer as inseguranças de uma pessoa, mas ele conseguia prever com acurácia incrível como explorá-las para causar o máximo de sofrimento. Era o tipo de habilidade que eu esperaria ver num interrogador treinado da CIA, não algo espontaneamente desenvolvido por uma criança.

Mais intrigante ainda havia sido a mudança aparente de táticas dele depois de seu desastroso encontro com o primeiro colega de quarto. Antes disso, vários registros de terapia indicam que a atitude preferida dele era induzir sentimentos de medo ou de auto-ódio em suas vítimas. Entretanto, imediatamente depois, como se seu modus operandi tivesse mudado do nada, ele começou a induzir medo tão extremo que causaria uma resposta de luta ou fuga. Por que essa mudança repentina de atitude? O que tinha acontecido para mudar seus sintomas?

E isso é assumindo que tinha sido ele quem fez essa sensação de medo se iniciar. O fato que o encontro do técnico com ele revelou apenas silêncio e isso tornou o enigma mais profundo. Eu voltei e olhei nos registros do primeiro colega de quarto. A implicação era claramente de que Joe tinha sido agredido. Poderia essa agressão tê-lo feito sofrer um surto psicótico e ficar catatônico? Mas, então, como explicar o abuso sexual na noite seguinte?

Todas essas eram perguntas que eu sabia que perseguiam os médicos de Joe por anos, então a perspectiva de resolvê-las numa única noite sem falar com o paciente era claramente impossível. Mesmo assim, minha mente ficou percorrendo-as de novo e de novo, enquanto eu tentava tentar dormir. Eventualmente, eu comecei a pensar em outras coisas.

Isso não ajudou. Provavelmente, por causa da referência quanto a experiência negativa do técnico de enfermagem, um dos pesadelos da minha infância ressurgiu aquela noite. Eu não comentaria sobre isso, mas ele tem relevância ao que acontecerá depois, então é melhor que eu explique.

Quando eu tinha seis anos, meu cachorro, Marty, se afogou em um rio. Nós estávamos brincando de buscar por perto, e, em um momento, eu joguei o graveto tão longe que eu não conseguia ver onde ele tinha ido. Assim, o graveto caiu no rio, e tinha acontecido uma tempestade na noite anterior, então o rio estava particularmente turbulento. Tudo isso para dizer que quando o Marty correu para pegar o graveto, ele foi pego pela correnteza e bateu sua cabeça em uma pedra, se afogando antes de ser resgatado dali a uma ou duas milhas.

Eu sabia que havia algo de errado quando ele não voltou com o graveto, e os meus pais tentaram me proteger da verdade. Entretanto, quando eles trouxeram o cadáver para casa, eu, de alguma forma, pensei que podia trazer meu cachorro de volta a vida, então eu lutei para ver o corpo. Eu ainda tenho aquela imagem do crânio ensanguentado de Marty como um dos meus maiores traumas de infância, mesmo que eu já tenha superado a minha participação na morte dele.

Mas isso não era verdade no início, provavelmente por isso que o pesadelo que eu irei descrever começou. No meu sonho, eu estava de pé na beira do rio com o Marty, mas não era um rio comum. Ao invés disso, ele ganhou vida e começou a tentar me puxar com braços longos, ondulados como se fossem tentáculos. No sonho, eu sempre conseguia lutar e voltar à margem, mas o Marty não tinha tanta sortem e eu tinha de assistir enquanto ele lutava e se debatia com os tentáculos estrangulando-o. Eu queria pular e tentar salvá-lo, mas, como frequentemente acontece nos sonhos, o que você quer fazer e o que o sonho deixa você fazer são coisas diferentes. Como criança, eu sempre iria acordar chorando no momento que a cabeça peluda dele desaparecia na água.

Mas na noite depois de ter encontrado o prontuário do Joe, tinha mais um detalhe que me fazia acordar e foi esse: quando Marty desapareceu, eu conseguia escutar o rio rindo. Era um barulho rouco, úmido e profundo que soava como se viesse de uma garganta apodrecendo. Eu acho que eu devo ter gritado, porque a próxima coisa que eu me lembro é a minha noiva me acordando e me abraçando.

Felizmente, aquele sonho não voltou aquela noite, e eu, mais ou menos, esqueci sobre isso quando eu voltei para o hospital, com a intenção de ver se havia algum jeito de eu me encontrar com nosso misterioso paciente problema. Entretanto, quando eu cheguei, uma nova distração se apresentou.

Uma multidão estava reunida na entrada principal do hospital, incluindo várias pessoas com câmeras e microfones se identificando como repórteres. Imediatamente curioso com o que estava acontecendo, eu me empurrei pela multidão, vendo uma maca levando um corpo encoberto para dentro de uma van da polícia. Agora preocupado, eu olhei pela multidão, procurando algum rosto que eu reconhecesse, e identifiquei um técnico que trabalhava na mesma ala que eu. Eu fui até ele e perguntei o que aconteceu.

“Nessie morreu”, ele disse, sua voz tão fraca que parecia estar há um milhão de milhas de distância. “Estão dizendo que ela se jogou do telhado noite passada depois de fazer a ronda. Ninguém sabe o porquê, mas um dos pacientes disse que ela fez isso depois que ela terminou... Você sabe, com ele”.

Agora tão horrorizado como o meu colega, eu me aproximei e lhe dei um abraço firme, como que para certificá-lo que alguém estava sentindo o mesmo que ele. Ele não reagiu. O choque ainda era muito forte.

Nota: A próxima atualização será na sexta-feira. Nós estamos nos aproximando das coisas que eu acho muito difíceis de falar, então meu ritmo de escrita irá diminuir.

sábado, 23 de abril de 2016

O paciente que quase me fez desistir da Medicina (Parte 1)

Autor: mytheosholt
História publicada no subforum nosleep no reddit. A história pertence ao seu respectivo autor, eu apenas a traduzi para o português.


O paciente que quase me fez desistir da medicina (Parte 1)

Autor: mytheosholt (Melhor Monstro Original 2015)

Eu escrevo isso agora, porque eu não sei se eu sou cúmplice de um terrível segredo ou se eu sou insano. Como sou um psiquiatra, isso obviamente seria ruim para mim tanto eticamente quanto de um ponto de vista profissional. Entretanto, já que eu não consigo acreditar que eu sou louco, estou postando essa história para vocês, porque vocês são as únicas pessoas que a considerariam possível. Para mim, é uma questão de responsabilidade para com a humanidade.

Antes de começar, eu quero dizer que gostaria de ser mais específico sobre os nomes e os lugares que eu mencionei aqui. Mas eu preciso continuar no meu emprego e não posso arriscar entrar na lista negra do sistema hospitalar como alguém que sai por aí revelando segredos de pacientes, mesmo que o caso seja muito especial. Então, enquanto os eventos que eu vou descrever aqui são reais, os nomes e lugares precisaram ser mascarados, para que eu possa manter minha carreira a salvo e meus leitores a salvo também.

Os detalhes que posso dar são esses: minha história aconteceu no início dos anos 2000 num hospital psiquiátrico nos Estados Unidos. Eu era, naquele tempo, um residente e tinha como tarefa assistir aos médicos contratados com suas diversas responsabilidades, incluindo terapia, prescrições, etc. Normalmente, um residente não faz nenhuma atividade médica por conta própria. Você deve apenas assistir e aprender, na maior parte do tempo. Entretanto, nesse hospital, os profissionais eram tão poucos que eu acabava não sendo um assistente para os médicos contratados, mas sim outro médico igual a eles em um nível não-oficial, já que eu tinha pouca ou nenhuma ajuda com os pacientes que eu tratava.

Isso pode incomodar alguns residentes, mas eu, na verdade, achei muito tranquilo. Eu me formei em uma das melhores faculdades de medicina no país e tinha escolhido essa residência porque eu queria ficar perto da minha noiva, que estava terminando a faculdade e esse era o hospital mais próximo da universidade dela. Meus professores tentaram me convencer a não ir, dizendo que essa residência estava abaixo de alguém com as minhas qualificações e que eu poderia ir a hospitais de maior renome, mas o meu coração venceu sobre minhas ambições. Além disso, eu disse para mim mesmo, seria só um trabalho que eu teria por um ano ou dois, enquanto minha noiva terminava seus estudos, para depois irmos morar juntos em outro lugar. Quanto a essa parte, eu estava certo.

Mesmo assim, se eu soubesse o que aconteceria naquele ano, eu teria reconsiderado.

Provavelmente não será nenhuma surpresa dizer que trabalhar num hospital psiquiátrico, especialmente um com falta de profissionais, é tanto fascinante como melancólico. Por um lado, você encontra pessoas cujas visões de mundos seriam sombriamente cômicas se não estivessem causando tanto sofrimento. Um dos meus pacientes, por exemplo, tentava desesperadamente me dizer que um clube de uma certa faculdade de elite tinha, em seu porão, algum tipo de monstro gigante de nome impronunciável que devorava pessoas, e que esse monstro tinha comido a namorada dele. Na verdade, esse homem sofrera de um surto psicótico e matara sua namorada ele mesmo, mas não fazia diferença dizer isso para ele. Outro paciente, enquanto isso, tinha certeza que uma personagem de desenho animado tinha se apaixonado por ele e assassinou um artista aleatório que desenhou essa personagem de um jeito que ele julgou degradante.

E então também havia três senhores negros, cada um deles acreditava ser Jesus, o que fazia com que eles gritassem uns com os outros sempre que estavam na mesma sala. A parte mais engraçada é que um deles tinha estudado teologia e ficava gritando citações aleatórias de São Tomás de Aquino aos outros, como se isso fizesse com que ele fosse o mais autêntico e pudesse clamar o título de Salvador. De novo, seria cômico, se a situação deles não fosse tão deprimente e desesperançosa de assistir.

Mas mesmo entre pessoas assim, todo hospital tem pelo menos um paciente que é estranho mesmo para a internação psiquiátrica. Eu estou falando sobre o tipo de pessoa que até os médicos já desistiram, e que todo mundo tem dificuldades de lidar, não importando o quanto de experiência tenham. Esse tipo de paciente é obviamente insano, mas ninguém sabe como eles ficaram desse jeito. O que se sabe é que você vai enlouquecer tentando descobrir.

O nosso era particularmente bizarro. Para começar, ele foi trazido ao hospital quando era criança e, de alguma forma, ficou internado no hospital por mais de vinte anos, apesar de ninguém ter conseguido diagnosticá-lo. Ele tinha um nome, mas me disseram que ninguém se lembrava de qual era, porque o caso dele era considerado tão intratável que ninguém mais lia o prontuário dele. Quando as pessoas falavam sobre ele, elas o chamavam de “Joe”.

Mas ninguém falava com ele, porque ele nunca saía de seu quarto e praticamente todo mundo era encorajado a ficar longe dele, ponto final. Aparentemente, qualquer tipo de contato humano, mesmo com profissionais treinados, deixava a condição dele pior. As únicas pessoas que o viam regularmente eram as pessoas encarregadas de trocar seus lençóis ou as que tinham de verificar se ele tomava sua medicação. Essas visitas eram invariavelmente silenciosas e sempre terminavam com o profissional parecendo que beberia um bar inteiro.

Sendo um médico jovem e ambicioso com muitas notas boas e pouca modéstia, eu estava fascinado por esse paciente misterioso e, assim que ouvi falar sobre ele, me decidi que eu seria quem conseguiria curá-lo. No início, eu mencionava isso de passagem, como uma piada, e aqueles que me escutavam riam por ser um entusiasmo juvenil.

Entretanto, havia uma enfermeira para quem eu falei sobre esse desejo seriamente. Por ter respeito por ela e por sua família, vou apenas chamá-la de Nessie, e é com ela que a história realmente começa.

Eu devo dizer algumas coisas sobre a Nessie e sobre o porquê de eu ter contado para ela. Nessie trabalhava no hospital desde que ela emigrou da Irlanda como uma enfermeira recém formada nos anos 70. Tecnicamente, ela era a enfermeira da noite, mas julgando pelas horas que ela trabalhava, você imaginaria que ela morava no hospital e que estava sempre disponível.

Ela também era uma fonte imensa de conforto para mim e para os outros residentes, que não estavam acostumados a trabalhar em um hospital psiquiátrico, especialmente um com tão poucos profissionais. Mas Nessie parecia saber como resolver praticamente qualquer problema que poderia surgir. Se um paciente irritado precisasse ser acalmado, Nessie estaria lá, com seu cabelo preto preso em um coque apertado e seus olhos verdes astutos brilhando em seu rosto sério. Se um paciente estava relutante para tomar sua medicação, Nessie estaria lá para convencê-lo. Se um membro da equipe estivesse ausente por qualquer razão, Nessie parecia estar sempre lá para substituí-lo. Se o lugar todo fosse destruído, eu tenho certeza que Nessie seria quem explicaria pro arquiteto como construí-lo do mesmo jeito que era.

Em outras palavras, se você queria saber como as coisas funcionavam ou queria algum conselho, você falava com a Nessie. Isso somente já seria motivo para me fazer conversar com ela com a minha ambição inocente, mas há uma razão acima de tudo que eu disse: Nessie era a enfermeira do turno da noite encarregada de administrar a medicação para “Joe” e, portanto, era uma das poucas pessoas que falava com ele regularmente.

Eu me lembro muito bem da conversa. Nessie estava sentada no refeitório do hospital, segurando um copo de café em suas mãos surpreendentemente firmes. Eu podia perceber que ela estava de bom humor, pois seu cabelo estava solto e Nessie parecia ter a regra de que quanto pior seu humor estava, mais apertado ela prendia seu cabelo. Se ela estava de cabelo solto, isso significava que ela o mais relaxada possível.

Eu servi um copo de café para mim e me sentei na frente dela. Ao me ver, o rosto dela se abriu num raro sorriso e ela inclinou a cabeça em cumprimento.

“Olá, Parker. Como vai o residente prodígio?” ela perguntou, sua voz ainda carregando um leve sotaque irlandês que a fazia ser ainda mais reconfortante. Eu sorri de volta.

“Aparentemente, suicida”.

“Oh, querido”, ela disse com falsa preocupação. “Devo buscar uma caixa de antidepressivos, então?”

“Oh, não, nada assim”, eu ri. “Não, quando eu disse ‘suicida’, eu queria dizer que vou fazer algo que todo mundo vai pensar que é tolice”.

“E já que é tolice, você veio falar com a tola mais velha desse hospital. Entendo”.

“Eu não quis dizer isso!”, eu protestei.

“Óbvio, rapaz. Não esquenta a cabeça”, ela disse com uma expressão calma. “Então, o que é essa coisa audaciosa que você pretende fazer?”

Eu me inclinei para perto dela, fazendo uma pausa dramática antes de responder: “Eu quero tentar terapia com o Joe”.

Nessie, que também estava inclinada para escutar o que eu estava falando, se levantou tão rapidamente que você imaginaria que ela levou um choque. O copo de café dela voou e caiu no chão. Ela fez o sinal da cruz, como se por reflexo.

“Jesus, Maria e José”, ela respirou, seu sotaque irlandês mais perceptível. “Não faça piadas sobre isso, seu idiota. Sua mãe não lhe ensinou a não assustar pobres velhinhas?”

“Eu não estou brincando, Nessie”, eu disse. “Eu realmente—“

Mas ela me cortou: “Sim, você está brincando. Porque, caso contrário, eu vou dar um soco em você e o resto da equipe vai fazer fila atrás de mim pra bater em você também”.

Os olhos verdes dela expressavam raiva, mas eu podia sentir que não era direcionada a mim. Ela parecia uma ursa que tinha resgatado seu filhote de um perigo. Gentilmente, eu coloquei minha mão no braço dela.

“Desculpa, Nessie. Eu não queria assustá-la”.

O olhar de fúria diminuiu, mas a expressão dela não ficou melhor. Agora ela simplesmente parecia abatida. Ela colocou a mão sobre a minha.

“Não é sua culpa, rapaz”, ela disse, mais sutilmente, com o medo se esvaindo de sua feição. “Mas você não tem ideia do que você está falando, e é melhor que você nunca tenha”.

“Por quê?”, eu perguntei. “O que há de errado com ele?”

Então, sabendo que ela podia não responder, eu acrescentei: “Nessie, você sabe que eu sou esperto demais pro meu próprio bem. Eu não gosto de enigmas que eu não consigo resolver”.

“Isso não é problema meu”, ela disse friamente. “Mas tudo bem, se vai servir para te fazer parar, eu vou contar o porquê. Porque toda vez que eu tenho de entrar no... quarto dele para levar remédio, eu me pergunto se não valeria a pena me internar no hospital só para não precisar mais fazer isso. Eu mal consigo dormir dos pesadelos que eu tenho as vezes. Então acredite em mim, Parker, se você é tão inteligente como pensa que é, você fica longe dele. Caso contrário, você pode acabar aqui internado com ele. E nenhum de nós quer ver isso”.

Eu gostaria de poder dizer que as palavras dela não foram em vão. Mas, na verdade, elas apenas aumentaram minha curiosidade, apesar de que essa foi a última vez que eu discuti abertamente minha ambição de curar o misterioso paciente com alguém da equipe. Na verdade, agora eu tinha um motivo ainda melhor: se eu pudesse curá-lo, Nessie e todo mundo que tinha que lidar com ele iria deixar de ter o que parecia ser a maior fonte de sofrimento de suas vidas. Eu tinha de achar o prontuário dele e ver se eu conseguia pensar em um diagnóstico.

Mas assim que eu resolvi seguir esse plano, eu encontrei um problema: já que ninguém queria lembrar o nome dele, pedir o prontuário dele seria complicado na melhor das circunstâncias. Pior ainda, o prontuário dele seria apenas em papel, porque o hospital estava incrivelmente atrasado em digitalizar os arquivos antigos, o que significava que eu tinha que encontrar um jeito de convencer o funcionário do Arquivo a me deixar vê-lo. Eu tentei solicitar uma vez, dizendo que não devia haver mais de um prontuário que tivesse o diagnóstico dele, seja lá qual for, mas quando a funcionária percebeu sobre quem eu estava falando, ela me disse para sair da sala dela em termos tão fortes que eu não vou reproduzir aqui.

Eventualmente, eu cheguei a uma solução. A funcionária que tinha gritado obscenidades geralmente trabalhava só de segunda a sexta e era substituída por outra pessoa nos finais de semana. Eu ainda não tinha nem ideia do que procurar, mas decidi seguir meu palpite de que “Joe” devia vir de algum lugar. É claro que eu não podia ir e pedir para ver o prontuário de todos os pacientes cujo apelido podia ser “Joe” sem despertar suspeitas, mas eu sabia que os funcionários do arquivo provavelmente esperavam que residentes perguntassem coisas estúpidas. Eu pedi para ter o próximo sábado livre, o que foi aprovado, e esperei ansiosamente.

Quando o dia finalmente chegou, eu fui para a sala do arquivo do hospital. Lá, eu perguntei para o velho apático que trabalhava lá se ele me deixaria dar uma olhada na seção da letra “J”, porque eu pensava que um dos senhores que pensava ser Jesus podia ter decidido isso por seu nome ser similar ao de Jesus. Era uma teoria ridícula, mesmo para um residente, mas o cara do arquivo estava obviamente muito interessado em voltar a fazer seja lá o que ele estava fazendo. Ele me deixou entrar, me disse como chegar lá e disse para eu colocar os prontuários no lugar quando terminasse.

Eu não precisava que ele me dissesse duas vezes. Eu quase corri para a seção que ele indicou e comecei a olhar a enorme quantidade de prontuários com “Joseph”, “Jonah”, ou até mesmo “Joe” como seus nomes. Eu imediatamente ignorei qualquer coisa que fosse depois de 1990, porque eu sabia que o paciente devia ser mais velho que isso, mas ainda assim sobraram centenas de prontuários. Entretanto, a maior parte deles era facilmente descartada, pois tinham documentação dizendo que os pacientes tinham morrido ou recebido alta

Apenas um punhado de prontuários sobrou quando terminei. Dois eram sobre esquizofrênicos paranoides que eu reconheci como sendo dois do trio de “Jesus” (minha desculpa idiota, ironicamente, estava correta). Uma mostrava uma foto de um homem careca que eu reconheci como sendo o cara dos desenhos animados. E então sobrou um. Eu não vou escrever o nome completo, mas seu primeiro nome era realmente “Joe”. Ele foi internado em 1982, com 6 anos de idade, e estava ainda sob custódia do hospital. O prontuário estava tão empoeirado que eu duvidava que alguém o tivesse lido na última década e tão cheio que parecia que ia explodir.

Mas as notas clínicas ainda estavam ali e em boa condição, junto com uma foto preta e branca de um menino de cabelo claro com os olhos arregalados. Isso me fez sentir como se eu estivesse olhando para um predador. Desviando o olhar, eu comecei a ler as anotações.

Ao ler, eu vi que muitos médicos que tinham me dito que não havia diagnóstico para o que Joe tinha estavam errados. Não é que não havia diagnóstico. É mais que havia uma dezena, mas os sintomas de Joe pareciam mudar inesperadamente. Mais surpreendente de tudo, entretanto, é que Joe recebeu alta em um certo momento da sua crônica relação com o sistema de saúde mental, depois de ficar apenas 24h no hospital. Aqui estão as notas do médico daquela época:

5 de Junho, 1982 – Joseph (sobrenome omitido) é um menino de seis anos sofrendo de terrores noturnos agudos, incluindo vívidas alucinações de algum tipo de criatura que vive nas paredes de seu quarto e que emerge à noite para assustá-lo. Os pais de Joseph o trouxeram depois de um episódio particularmente violento, no qual Joseph sofreu contusões nos braços. Ele diz terem sido das garras da criatura, mas a conclusão mais óbvia é de que as contusões foram causadas pelo próprio paciente. Uma prescrição de sedativos, juntamente com psicoterapia, foi prescrita.

6 de Junho, 1982 – Nas suas sessões de terapia, Joseph foi bastante cooperativo, apesar de ter demorado um pouco a ser receptivo à explicação do médico de que o monstro que ele pensava ter visto era apenas sua imaginação. Apesar de não se ter prolongado a terapia, os sedativos parecem funcionar, então ele receberá alta depois de ser monitorado pelas próximas 24h.

Eu quase ri. Parecia ridículo que evoluções tão breves fossem o prelúdio de décadas de horror. De qualquer forma, eu continuei. As anotações seguintes indicavam que Joe recebeu alta depois das 24h conforme previsto. Também há uma referência a uma gravação de uma sessão de terapia de Joe, cujo número eu anotei no meu caderno.

Entretanto, o otimismo dos médicos durante a primeira internação de Joe foi errôneo, porque, no dia seguinte, Joe foi trazido novamente, dessa vez com um conjunto mais grave de sintomas. E dessa vez, ele nunca recebeu alta. A primeira evolução da sua segunda internação segue:

7 de Junho, 1982 – Joe (sobrenome omitido) é um menino de seis anos previamente internado por terrores noturno. Foram prescritos sedativos e algumas sessões de terapia. Infelizmente, ao invés de funcionarem, essas medidas parecem ter piorado a psicose de Joe, que também mudou consideravelmente desde sua primeira internação. Agora, ao invés de temer que um monstro vive em suas paredes, Joe parece ter regredido a um estado pré-verbal, também se tornando imprevisível e violento.

Em suas primeiras horas de internação, Joe já agrediu diversos membros da equipe e precisou ser contido. É importante observar que apesar de ele ser muito pequeno para saber o que está fazendo, todos seus ataques foram em partes da anatomia do alvo que tipicamente são vulneráveis e/ou sensíveis a dor. A única exceção foi uma enfermeira que ele chutou na canela, mas mesmo essa agressão teve consequência, pois essa enfermeira tinha acabado de fazer cirurgia em sua canela e precisou ser mandada para casa numa cadeira de rodas.

Nós tentamos terapia, mas depois de uma sessão, Joe pareceu não fazer nenhum progresso. Ao invés disso, ele apenas fez sons bizarros, estalando e arranhando, e parecia incapaz de deambular durante a sessão inteira. Eventualmente, ele se tornou violento novamente e precisou ser contido. Além disso, a condição de Joe piorou quando foi levado para seu quarto, pois uma técnica, Ashley M., rompeu o protocolo do hospital e gritou que ele era um menino mau por chutar e socar tanto. Isso pareceu fazer com que Joe conseguisse falar de novo, mas não parecia estar lúcido, gritando à senhorita M., debochando dela e insultando-a com uma variedade de xingamentos que demonstravam uma capacidade de insight maior do que a de um menino de seis anos. Eram insultos tão terríveis que a própria senhorita M. solicitou licença e subsequentemente iniciou terapia, pois os insultos que Joe proferiu a fizeram relembrar memórias traumáticas.

A violência de Joe, combinada com essa variedade de abusos verbais, sugerem algum tipo de abuso na infância ou que ele é um sociopata com delírios paranoides. Segue em acompanhamento.

Agora fascinado, eu li a evolução do dia seguinte.

8 de Junho, 1982 – Joe segue sem apresentar melhoras. Entretanto, agora acreditamos que estamos lidando com algum tipo de sociopatia muito precoce. Hoje, quando trazido para terapia, Joe começou a agredir verbalmente seu terapeuta, Dr. A., de maneira similar a que tinha agredido a senhorita M.. Entretanto, o conteúdo de seus insultos era completamente diferente e, mais uma vez, dirigidos com muita precisão às questões pessoais do Dr. A.. Felizmente, Dr. A. conseguiu desviar dos ataques e tentou usá-los como meio de questionar o estado da mente de Joe. Ele não conseguiu obter informações, entretanto, e dispensou Joe da terapia. Dr. A. disse que esse episódio quase o fez romper seu pacto de vinte anos com os Alcoólatras Anônimos.

Não havia nenhuma evolução sobre a terapia de Joe depois dessa. Aparentemente, uma sessão foi o suficiente para fazer quem escreveu a evolução e o médico que o atendia desistirem. Eu balancei minha cabeça. Até um hospital com poucos funcionários como esse deveria ter se esforçado mais. A única nota seguinte daquele ano foi escrita pelo Diretor Médico e era uma ordem para manter Joe isolado do restante dos pacientes. Por quatro anos após isso, não havia nada.

Continua...