Autor: mytheosholt
História publicada no subforum nosleep no reddit. A história pertence ao seu respectivo autor, eu apenas a traduzi para o português.
O paciente que quase me fez desistir da medicina (Parte 1)
Autor: mytheosholt (Melhor Monstro Original 2015)
Eu escrevo isso agora, porque eu não sei se eu sou cúmplice de um terrível segredo ou se eu sou insano. Como sou um psiquiatra, isso obviamente seria ruim para mim tanto eticamente quanto de um ponto de vista profissional. Entretanto, já que eu não consigo acreditar que eu sou louco, estou postando essa história para vocês, porque vocês são as únicas pessoas que a considerariam possível. Para mim, é uma questão de responsabilidade para com a humanidade.
Antes de começar, eu quero dizer que gostaria de ser mais específico sobre os nomes e os lugares que eu mencionei aqui. Mas eu preciso continuar no meu emprego e não posso arriscar entrar na lista negra do sistema hospitalar como alguém que sai por aí revelando segredos de pacientes, mesmo que o caso seja muito especial. Então, enquanto os eventos que eu vou descrever aqui são reais, os nomes e lugares precisaram ser mascarados, para que eu possa manter minha carreira a salvo e meus leitores a salvo também.
Os detalhes que posso dar são esses: minha história aconteceu no início dos anos 2000 num hospital psiquiátrico nos Estados Unidos. Eu era, naquele tempo, um residente e tinha como tarefa assistir aos médicos contratados com suas diversas responsabilidades, incluindo terapia, prescrições, etc. Normalmente, um residente não faz nenhuma atividade médica por conta própria. Você deve apenas assistir e aprender, na maior parte do tempo. Entretanto, nesse hospital, os profissionais eram tão poucos que eu acabava não sendo um assistente para os médicos contratados, mas sim outro médico igual a eles em um nível não-oficial, já que eu tinha pouca ou nenhuma ajuda com os pacientes que eu tratava.
Isso pode incomodar alguns residentes, mas eu, na verdade, achei muito tranquilo. Eu me formei em uma das melhores faculdades de medicina no país e tinha escolhido essa residência porque eu queria ficar perto da minha noiva, que estava terminando a faculdade e esse era o hospital mais próximo da universidade dela. Meus professores tentaram me convencer a não ir, dizendo que essa residência estava abaixo de alguém com as minhas qualificações e que eu poderia ir a hospitais de maior renome, mas o meu coração venceu sobre minhas ambições. Além disso, eu disse para mim mesmo, seria só um trabalho que eu teria por um ano ou dois, enquanto minha noiva terminava seus estudos, para depois irmos morar juntos em outro lugar. Quanto a essa parte, eu estava certo.
Mesmo assim, se eu soubesse o que aconteceria naquele ano, eu teria reconsiderado.
Provavelmente não será nenhuma surpresa dizer que trabalhar num hospital psiquiátrico, especialmente um com falta de profissionais, é tanto fascinante como melancólico. Por um lado, você encontra pessoas cujas visões de mundos seriam sombriamente cômicas se não estivessem causando tanto sofrimento. Um dos meus pacientes, por exemplo, tentava desesperadamente me dizer que um clube de uma certa faculdade de elite tinha, em seu porão, algum tipo de monstro gigante de nome impronunciável que devorava pessoas, e que esse monstro tinha comido a namorada dele. Na verdade, esse homem sofrera de um surto psicótico e matara sua namorada ele mesmo, mas não fazia diferença dizer isso para ele. Outro paciente, enquanto isso, tinha certeza que uma personagem de desenho animado tinha se apaixonado por ele e assassinou um artista aleatório que desenhou essa personagem de um jeito que ele julgou degradante.
E então também havia três senhores negros, cada um deles acreditava ser Jesus, o que fazia com que eles gritassem uns com os outros sempre que estavam na mesma sala. A parte mais engraçada é que um deles tinha estudado teologia e ficava gritando citações aleatórias de São Tomás de Aquino aos outros, como se isso fizesse com que ele fosse o mais autêntico e pudesse clamar o título de Salvador. De novo, seria cômico, se a situação deles não fosse tão deprimente e desesperançosa de assistir.
Mas mesmo entre pessoas assim, todo hospital tem pelo menos um paciente que é estranho mesmo para a internação psiquiátrica. Eu estou falando sobre o tipo de pessoa que até os médicos já desistiram, e que todo mundo tem dificuldades de lidar, não importando o quanto de experiência tenham. Esse tipo de paciente é obviamente insano, mas ninguém sabe como eles ficaram desse jeito. O que se sabe é que você vai enlouquecer tentando descobrir.
O nosso era particularmente bizarro. Para começar, ele foi trazido ao hospital quando era criança e, de alguma forma, ficou internado no hospital por mais de vinte anos, apesar de ninguém ter conseguido diagnosticá-lo. Ele tinha um nome, mas me disseram que ninguém se lembrava de qual era, porque o caso dele era considerado tão intratável que ninguém mais lia o prontuário dele. Quando as pessoas falavam sobre ele, elas o chamavam de “Joe”.
Mas ninguém falava com ele, porque ele nunca saía de seu quarto e praticamente todo mundo era encorajado a ficar longe dele, ponto final. Aparentemente, qualquer tipo de contato humano, mesmo com profissionais treinados, deixava a condição dele pior. As únicas pessoas que o viam regularmente eram as pessoas encarregadas de trocar seus lençóis ou as que tinham de verificar se ele tomava sua medicação. Essas visitas eram invariavelmente silenciosas e sempre terminavam com o profissional parecendo que beberia um bar inteiro.
Sendo um médico jovem e ambicioso com muitas notas boas e pouca modéstia, eu estava fascinado por esse paciente misterioso e, assim que ouvi falar sobre ele, me decidi que eu seria quem conseguiria curá-lo. No início, eu mencionava isso de passagem, como uma piada, e aqueles que me escutavam riam por ser um entusiasmo juvenil.
Entretanto, havia uma enfermeira para quem eu falei sobre esse desejo seriamente. Por ter respeito por ela e por sua família, vou apenas chamá-la de Nessie, e é com ela que a história realmente começa.
Eu devo dizer algumas coisas sobre a Nessie e sobre o porquê de eu ter contado para ela. Nessie trabalhava no hospital desde que ela emigrou da Irlanda como uma enfermeira recém formada nos anos 70. Tecnicamente, ela era a enfermeira da noite, mas julgando pelas horas que ela trabalhava, você imaginaria que ela morava no hospital e que estava sempre disponível.
Ela também era uma fonte imensa de conforto para mim e para os outros residentes, que não estavam acostumados a trabalhar em um hospital psiquiátrico, especialmente um com tão poucos profissionais. Mas Nessie parecia saber como resolver praticamente qualquer problema que poderia surgir. Se um paciente irritado precisasse ser acalmado, Nessie estaria lá, com seu cabelo preto preso em um coque apertado e seus olhos verdes astutos brilhando em seu rosto sério. Se um paciente estava relutante para tomar sua medicação, Nessie estaria lá para convencê-lo. Se um membro da equipe estivesse ausente por qualquer razão, Nessie parecia estar sempre lá para substituí-lo. Se o lugar todo fosse destruído, eu tenho certeza que Nessie seria quem explicaria pro arquiteto como construí-lo do mesmo jeito que era.
Em outras palavras, se você queria saber como as coisas funcionavam ou queria algum conselho, você falava com a Nessie. Isso somente já seria motivo para me fazer conversar com ela com a minha ambição inocente, mas há uma razão acima de tudo que eu disse: Nessie era a enfermeira do turno da noite encarregada de administrar a medicação para “Joe” e, portanto, era uma das poucas pessoas que falava com ele regularmente.
Eu me lembro muito bem da conversa. Nessie estava sentada no refeitório do hospital, segurando um copo de café em suas mãos surpreendentemente firmes. Eu podia perceber que ela estava de bom humor, pois seu cabelo estava solto e Nessie parecia ter a regra de que quanto pior seu humor estava, mais apertado ela prendia seu cabelo. Se ela estava de cabelo solto, isso significava que ela o mais relaxada possível.
Eu servi um copo de café para mim e me sentei na frente dela. Ao me ver, o rosto dela se abriu num raro sorriso e ela inclinou a cabeça em cumprimento.
“Olá, Parker. Como vai o residente prodígio?” ela perguntou, sua voz ainda carregando um leve sotaque irlandês que a fazia ser ainda mais reconfortante. Eu sorri de volta.
“Aparentemente, suicida”.
“Oh, querido”, ela disse com falsa preocupação. “Devo buscar uma caixa de antidepressivos, então?”
“Oh, não, nada assim”, eu ri. “Não, quando eu disse ‘suicida’, eu queria dizer que vou fazer algo que todo mundo vai pensar que é tolice”.
“E já que é tolice, você veio falar com a tola mais velha desse hospital. Entendo”.
“Eu não quis dizer isso!”, eu protestei.
“Óbvio, rapaz. Não esquenta a cabeça”, ela disse com uma expressão calma. “Então, o que é essa coisa audaciosa que você pretende fazer?”
Eu me inclinei para perto dela, fazendo uma pausa dramática antes de responder: “Eu quero tentar terapia com o Joe”.
Nessie, que também estava inclinada para escutar o que eu estava falando, se levantou tão rapidamente que você imaginaria que ela levou um choque. O copo de café dela voou e caiu no chão. Ela fez o sinal da cruz, como se por reflexo.
“Jesus, Maria e José”, ela respirou, seu sotaque irlandês mais perceptível. “Não faça piadas sobre isso, seu idiota. Sua mãe não lhe ensinou a não assustar pobres velhinhas?”
“Eu não estou brincando, Nessie”, eu disse. “Eu realmente—“
Mas ela me cortou: “Sim, você está brincando. Porque, caso contrário, eu vou dar um soco em você e o resto da equipe vai fazer fila atrás de mim pra bater em você também”.
Os olhos verdes dela expressavam raiva, mas eu podia sentir que não era direcionada a mim. Ela parecia uma ursa que tinha resgatado seu filhote de um perigo. Gentilmente, eu coloquei minha mão no braço dela.
“Desculpa, Nessie. Eu não queria assustá-la”.
O olhar de fúria diminuiu, mas a expressão dela não ficou melhor. Agora ela simplesmente parecia abatida. Ela colocou a mão sobre a minha.
“Não é sua culpa, rapaz”, ela disse, mais sutilmente, com o medo se esvaindo de sua feição. “Mas você não tem ideia do que você está falando, e é melhor que você nunca tenha”.
“Por quê?”, eu perguntei. “O que há de errado com ele?”
Então, sabendo que ela podia não responder, eu acrescentei: “Nessie, você sabe que eu sou esperto demais pro meu próprio bem. Eu não gosto de enigmas que eu não consigo resolver”.
“Isso não é problema meu”, ela disse friamente. “Mas tudo bem, se vai servir para te fazer parar, eu vou contar o porquê. Porque toda vez que eu tenho de entrar no... quarto dele para levar remédio, eu me pergunto se não valeria a pena me internar no hospital só para não precisar mais fazer isso. Eu mal consigo dormir dos pesadelos que eu tenho as vezes. Então acredite em mim, Parker, se você é tão inteligente como pensa que é, você fica longe dele. Caso contrário, você pode acabar aqui internado com ele. E nenhum de nós quer ver isso”.
Eu gostaria de poder dizer que as palavras dela não foram em vão. Mas, na verdade, elas apenas aumentaram minha curiosidade, apesar de que essa foi a última vez que eu discuti abertamente minha ambição de curar o misterioso paciente com alguém da equipe. Na verdade, agora eu tinha um motivo ainda melhor: se eu pudesse curá-lo, Nessie e todo mundo que tinha que lidar com ele iria deixar de ter o que parecia ser a maior fonte de sofrimento de suas vidas. Eu tinha de achar o prontuário dele e ver se eu conseguia pensar em um diagnóstico.
Mas assim que eu resolvi seguir esse plano, eu encontrei um problema: já que ninguém queria lembrar o nome dele, pedir o prontuário dele seria complicado na melhor das circunstâncias. Pior ainda, o prontuário dele seria apenas em papel, porque o hospital estava incrivelmente atrasado em digitalizar os arquivos antigos, o que significava que eu tinha que encontrar um jeito de convencer o funcionário do Arquivo a me deixar vê-lo. Eu tentei solicitar uma vez, dizendo que não devia haver mais de um prontuário que tivesse o diagnóstico dele, seja lá qual for, mas quando a funcionária percebeu sobre quem eu estava falando, ela me disse para sair da sala dela em termos tão fortes que eu não vou reproduzir aqui.
Eventualmente, eu cheguei a uma solução. A funcionária que tinha gritado obscenidades geralmente trabalhava só de segunda a sexta e era substituída por outra pessoa nos finais de semana. Eu ainda não tinha nem ideia do que procurar, mas decidi seguir meu palpite de que “Joe” devia vir de algum lugar. É claro que eu não podia ir e pedir para ver o prontuário de todos os pacientes cujo apelido podia ser “Joe” sem despertar suspeitas, mas eu sabia que os funcionários do arquivo provavelmente esperavam que residentes perguntassem coisas estúpidas. Eu pedi para ter o próximo sábado livre, o que foi aprovado, e esperei ansiosamente.
Quando o dia finalmente chegou, eu fui para a sala do arquivo do hospital. Lá, eu perguntei para o velho apático que trabalhava lá se ele me deixaria dar uma olhada na seção da letra “J”, porque eu pensava que um dos senhores que pensava ser Jesus podia ter decidido isso por seu nome ser similar ao de Jesus. Era uma teoria ridícula, mesmo para um residente, mas o cara do arquivo estava obviamente muito interessado em voltar a fazer seja lá o que ele estava fazendo. Ele me deixou entrar, me disse como chegar lá e disse para eu colocar os prontuários no lugar quando terminasse.
Eu não precisava que ele me dissesse duas vezes. Eu quase corri para a seção que ele indicou e comecei a olhar a enorme quantidade de prontuários com “Joseph”, “Jonah”, ou até mesmo “Joe” como seus nomes. Eu imediatamente ignorei qualquer coisa que fosse depois de 1990, porque eu sabia que o paciente devia ser mais velho que isso, mas ainda assim sobraram centenas de prontuários. Entretanto, a maior parte deles era facilmente descartada, pois tinham documentação dizendo que os pacientes tinham morrido ou recebido alta
Apenas um punhado de prontuários sobrou quando terminei. Dois eram sobre esquizofrênicos paranoides que eu reconheci como sendo dois do trio de “Jesus” (minha desculpa idiota, ironicamente, estava correta). Uma mostrava uma foto de um homem careca que eu reconheci como sendo o cara dos desenhos animados. E então sobrou um. Eu não vou escrever o nome completo, mas seu primeiro nome era realmente “Joe”. Ele foi internado em 1982, com 6 anos de idade, e estava ainda sob custódia do hospital. O prontuário estava tão empoeirado que eu duvidava que alguém o tivesse lido na última década e tão cheio que parecia que ia explodir.
Mas as notas clínicas ainda estavam ali e em boa condição, junto com uma foto preta e branca de um menino de cabelo claro com os olhos arregalados. Isso me fez sentir como se eu estivesse olhando para um predador. Desviando o olhar, eu comecei a ler as anotações.
Ao ler, eu vi que muitos médicos que tinham me dito que não havia diagnóstico para o que Joe tinha estavam errados. Não é que não havia diagnóstico. É mais que havia uma dezena, mas os sintomas de Joe pareciam mudar inesperadamente. Mais surpreendente de tudo, entretanto, é que Joe recebeu alta em um certo momento da sua crônica relação com o sistema de saúde mental, depois de ficar apenas 24h no hospital. Aqui estão as notas do médico daquela época:
5 de Junho, 1982 – Joseph (sobrenome omitido) é um menino de seis anos sofrendo de terrores noturnos agudos, incluindo vívidas alucinações de algum tipo de criatura que vive nas paredes de seu quarto e que emerge à noite para assustá-lo. Os pais de Joseph o trouxeram depois de um episódio particularmente violento, no qual Joseph sofreu contusões nos braços. Ele diz terem sido das garras da criatura, mas a conclusão mais óbvia é de que as contusões foram causadas pelo próprio paciente. Uma prescrição de sedativos, juntamente com psicoterapia, foi prescrita.
6 de Junho, 1982 – Nas suas sessões de terapia, Joseph foi bastante cooperativo, apesar de ter demorado um pouco a ser receptivo à explicação do médico de que o monstro que ele pensava ter visto era apenas sua imaginação. Apesar de não se ter prolongado a terapia, os sedativos parecem funcionar, então ele receberá alta depois de ser monitorado pelas próximas 24h.
Eu quase ri. Parecia ridículo que evoluções tão breves fossem o prelúdio de décadas de horror. De qualquer forma, eu continuei. As anotações seguintes indicavam que Joe recebeu alta depois das 24h conforme previsto. Também há uma referência a uma gravação de uma sessão de terapia de Joe, cujo número eu anotei no meu caderno.
Entretanto, o otimismo dos médicos durante a primeira internação de Joe foi errôneo, porque, no dia seguinte, Joe foi trazido novamente, dessa vez com um conjunto mais grave de sintomas. E dessa vez, ele nunca recebeu alta. A primeira evolução da sua segunda internação segue:
7 de Junho, 1982 – Joe (sobrenome omitido) é um menino de seis anos previamente internado por terrores noturno. Foram prescritos sedativos e algumas sessões de terapia. Infelizmente, ao invés de funcionarem, essas medidas parecem ter piorado a psicose de Joe, que também mudou consideravelmente desde sua primeira internação. Agora, ao invés de temer que um monstro vive em suas paredes, Joe parece ter regredido a um estado pré-verbal, também se tornando imprevisível e violento.
Em suas primeiras horas de internação, Joe já agrediu diversos membros da equipe e precisou ser contido. É importante observar que apesar de ele ser muito pequeno para saber o que está fazendo, todos seus ataques foram em partes da anatomia do alvo que tipicamente são vulneráveis e/ou sensíveis a dor. A única exceção foi uma enfermeira que ele chutou na canela, mas mesmo essa agressão teve consequência, pois essa enfermeira tinha acabado de fazer cirurgia em sua canela e precisou ser mandada para casa numa cadeira de rodas.
Nós tentamos terapia, mas depois de uma sessão, Joe pareceu não fazer nenhum progresso. Ao invés disso, ele apenas fez sons bizarros, estalando e arranhando, e parecia incapaz de deambular durante a sessão inteira. Eventualmente, ele se tornou violento novamente e precisou ser contido. Além disso, a condição de Joe piorou quando foi levado para seu quarto, pois uma técnica, Ashley M., rompeu o protocolo do hospital e gritou que ele era um menino mau por chutar e socar tanto. Isso pareceu fazer com que Joe conseguisse falar de novo, mas não parecia estar lúcido, gritando à senhorita M., debochando dela e insultando-a com uma variedade de xingamentos que demonstravam uma capacidade de insight maior do que a de um menino de seis anos. Eram insultos tão terríveis que a própria senhorita M. solicitou licença e subsequentemente iniciou terapia, pois os insultos que Joe proferiu a fizeram relembrar memórias traumáticas.
A violência de Joe, combinada com essa variedade de abusos verbais, sugerem algum tipo de abuso na infância ou que ele é um sociopata com delírios paranoides. Segue em acompanhamento.
Agora fascinado, eu li a evolução do dia seguinte.
8 de Junho, 1982 – Joe segue sem apresentar melhoras. Entretanto, agora acreditamos que estamos lidando com algum tipo de sociopatia muito precoce. Hoje, quando trazido para terapia, Joe começou a agredir verbalmente seu terapeuta, Dr. A., de maneira similar a que tinha agredido a senhorita M.. Entretanto, o conteúdo de seus insultos era completamente diferente e, mais uma vez, dirigidos com muita precisão às questões pessoais do Dr. A.. Felizmente, Dr. A. conseguiu desviar dos ataques e tentou usá-los como meio de questionar o estado da mente de Joe. Ele não conseguiu obter informações, entretanto, e dispensou Joe da terapia. Dr. A. disse que esse episódio quase o fez romper seu pacto de vinte anos com os Alcoólatras Anônimos.
Não havia nenhuma evolução sobre a terapia de Joe depois dessa. Aparentemente, uma sessão foi o suficiente para fazer quem escreveu a evolução e o médico que o atendia desistirem. Eu balancei minha cabeça. Até um hospital com poucos funcionários como esse deveria ter se esforçado mais. A única nota seguinte daquele ano foi escrita pelo Diretor Médico e era uma ordem para manter Joe isolado do restante dos pacientes. Por quatro anos após isso, não havia nada.